Estava eu a limpar os ficheiros do meu netbook para o formatar quando encontrei este texto, dentro de uma pasta com o nome deste blog. Presumo que o terei escrito no ano passado, por volta desta altura, com intenções de o publicar por aqui, creio eu. Portanto, e até porque não vejo outra utilidade para isto, partilho convosco este meu texto.
Abri os olhos com um suspiro, permitindo que a luz matinal penetrasse a escuridão que era o meu mundo e me arrancasse ao meu sono sem sonhos. Ultimamente, era sempre assim. Cada vez que me entregava ao doce embalo do cansaço, só voltava a despertar do coma da dor pela manhã. Talvez fosse melhor assim, embora sentisse a falta das histórias fantásticas que tomavam vida à noite desde criança. Pelo menos, tinha o consolo de poder refugiar-me num mundo onde não havia dor, onde não havia memória; um mundo onde nada existia. Nem que fosse, apenas, durante escassas horas.Como tinha vindo a deliciar-me com esse espaço de tempo! Era a certeza de que seria desligado do mundo ao cair da noite que me dava forças para enfrentar cada dia. Era saber poder escudar-me do sofrimento que me dava alento e me impedia de tomar decisões sem qualquer razão lógica.Sem me mexer, olhei pelo vidro cristalino da minha janela. No céu límpido, os pássaros que via a voarem lá fora de encontro ao azul que se expandia pelo infinito, pareciam zombar da infelicidade alheia, com piares alegres e melódicos.Que deleite seria se fosse um pássaro. Bastava estender as asas e voar, voar para longe da dor, para longe da memória. Num dia estaria aqui, e noutro acolá. Mas ser pássaro é muito mais que isso. Ser pássaro é carregar nas asas o peso das estações; é entoar bem alto o medo que espreita a cada ramo de árvore; é enfrentar o mundo como se nada mais importasse.
Mas eu... Eu não sou um pássaro. Eu não sou capaz de enfrentar a minha própria dor, quanto mais enfrentar o mundo. Eu encolho-me no âmago do meu ser, aguardando, esperando, mas a dor nunca me abandona.Com um movimento lento, estico o braço e pego no meu telemóvel. Ao toque o frio do metal e do plástico fazem-me suster a respiração, falhando uma batida cardíaca. Num momento longo e eterno, que não durou mais de um segundo, o choque térmico espalhou-se por todo o meu corpo, alertando-me para o que aí vinha.Sem olhar, introduzi a mesma combinação de teclas que tinha introduzido todas as manhãs, nas últimas semanas. Inspirei, enquanto uma lágrima me escorria pela face, numa corrida desenfreada, como se toda a sua existência tivesse convergido naquele momento.
Desculpa, mas não aguento mais a distância que nos separa. Acabou.
E assim, sinto o meu coração despedar-se um pouco mais, multiplicando-se em milhares de milhões de microscópicos pedacinhos cravados no meu peito, que me irão atormentar pelo dia fora, até ao cair da noite.


Muito bonito. Já não passava aqui há uns tempos.
ResponderEliminarAproveito para te convidar a participares no concurso PIXEL que organizei no meu blogue e que está em curso.
Podes passar lá para ler as histórias e ler as regras aqui:
http://good-friends-are-hard-to-find.blogspot.pt/2012/12/happy-xmas-ultima-edicao-do-pixel.html
abc