sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Momento Literário.

Estava eu a limpar os ficheiros do meu netbook para o formatar quando encontrei este texto, dentro de uma pasta com o nome deste blog. Presumo que o terei escrito no ano passado, por volta desta altura, com intenções de o publicar por aqui, creio eu. Portanto, e até porque não vejo outra utilidade para isto, partilho convosco este meu texto.



Abri os olhos com um suspiro, permitindo que a luz matinal penetrasse a escuridão que era o meu mundo e me arrancasse ao meu sono sem sonhos. Ultimamente, era sempre assim. Cada vez que me entregava ao doce embalo do cansaço, só voltava a despertar do coma da dor pela manhã. Talvez fosse melhor assim, embora sentisse a falta das histórias fantásticas que tomavam vida à noite desde criança. Pelo menos, tinha o consolo de poder refugiar-me num mundo onde não havia dor, onde não havia memória; um mundo onde nada existia. Nem que fosse, apenas, durante escassas horas.Como tinha vindo a deliciar-me com esse espaço de tempo! Era a certeza de que seria desligado do mundo ao cair da noite que me dava forças para enfrentar cada dia. Era saber poder escudar-me do sofrimento que me dava alento e me impedia de tomar decisões sem qualquer razão lógica.Sem me mexer, olhei pelo vidro cristalino da minha janela. No céu límpido, os pássaros que via a voarem lá fora de encontro ao azul que se expandia pelo infinito, pareciam zombar da infelicidade alheia, com piares alegres e melódicos.Que deleite seria se fosse um pássaro. Bastava estender as asas e voar, voar para longe da dor, para longe da memória. Num dia estaria aqui, e noutro acolá. Mas ser pássaro é muito mais que isso. Ser pássaro é carregar nas asas o peso das estações; é entoar bem alto o medo que espreita a cada ramo de árvore; é enfrentar o mundo como se nada mais importasse.

Mas eu... Eu não sou um pássaro. Eu não sou capaz de enfrentar a minha própria dor, quanto mais enfrentar o mundo. Eu encolho-me no âmago do meu ser, aguardando, esperando, mas a dor nunca me abandona.
Com um movimento lento, estico o braço e pego no meu telemóvel. Ao toque o frio do metal e do plástico fazem-me suster a respiração, falhando uma batida cardíaca. Num momento longo e eterno, que não durou mais de um segundo, o choque térmico espalhou-se por todo o meu corpo, alertando-me para o que aí vinha.Sem olhar, introduzi a mesma combinação de teclas que tinha introduzido todas as manhãs, nas últimas semanas. Inspirei, enquanto uma lágrima me escorria pela face, numa corrida desenfreada, como se toda a sua existência tivesse convergido naquele momento.

Desculpa, mas não aguento mais a distância que nos separa. Acabou.

E assim, sinto o meu coração despedar-se um pouco mais, multiplicando-se em milhares de milhões de microscópicos pedacinhos cravados no meu peito, que me irão atormentar pelo dia fora, até ao cair da noite.

1 comentário:

  1. Muito bonito. Já não passava aqui há uns tempos.
    Aproveito para te convidar a participares no concurso PIXEL que organizei no meu blogue e que está em curso.
    Podes passar lá para ler as histórias e ler as regras aqui:
    http://good-friends-are-hard-to-find.blogspot.pt/2012/12/happy-xmas-ultima-edicao-do-pixel.html
    abc

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